Apresentação
A crítica abaixo é referente a um trabalho apresentado no segundo semestre de 2015 para a disciplina Teoria do Romance, ministrada no curso de Licenciatura em Letras pela UNESP- S. J. DO RIO PRETO-SP. O objeto de estudo é o romance "Mémoria de Elefante" de António Lobo Antunes. O eixo analítico em estudo e seus aspectos são: o heroi do romance em relação com o mundo em que vive e com os personagens Meursault do livro "O Estrangeiro" de Albert Camus e com Rastignac, personagem do livro "O Pai Goriot" de Balzac.
Como
observa Schüler (1989), o romance constitui-se revolucionário ao passo que não
se submete a uma ordem externa que
tenta conter a intranquilidade do
subjetivo. Nesse sentido o romance:
Memória de Elefante de Antonio Lobo Antunes, liberta-se das sujeições de
qualquer divindade ou paradigma científico para mergulhar em um oceano profundo
de perscrutações independentes e de permanente penitência. O que diante das memórias
transpassadas de subjetivismo do heroi do romance inflige ao leitor um passeio
nada sereno sobre o tecido verbal representante
de um interior desconsolado e amargurado do personagem.
O cerceamento da imaginação realmente rompe-se
no cotidiano concreto do hospital, em que o psiquiatra se arrasta laboralmente
tentando prosseguir na vida insuportável, sem perder o senso crítico da
realidade burguesa que o cerca. Ao mesmo tempo, o personagem encontra-se
inquirindo em um atoleiro de lembranças, que a cada passo em direção de uma
fresta de luz que o socorra da falência de sua vida, afoga-se ainda mais em uma
areia movediça de lembranças que não respondem à inquirição do desolamento e do
fracasso consumido de sua vida, ver Schüler (1989).
Em
três concepções distintas de suas lembranças, o médico reconstrói o cenário de
imagens que o resgata do cotidiano falido para um interrogatório praticamente do
inconsciente do personagem, que possa levá-lo às premissas que culminaram para
a ruína de sua vida atual. As lembranças da infância remetem ao passado de uma
família tradicional burguesa que se abstém sem remorsos de grandes afetos. Projeta
nestas lembranças o descompasso de sua personalidade infantil com a imagem da
família patriarcal burguesa e seus costumes e privilégios. Já as rememorações
de Angola remetem à imagem terrível de um projeto de humanidade no qual o
personagem não compactua, e por força maior é impelido pelo destino a
participar, a contra vontade, de uma guerra de independência sem nexo, que o
separou cruelmente da mulher e das filhas. Enquanto, as lembranças da mulher e
das filhas são o ponto tenso e belo de um profundo sentimento que revela a
imagem da convivência amorosa, que jamais deveria ter sido desfeita, mas que os
rumos irônicos da vida encarregam-se de desconstruir o que por essência deveria
pertencer, apenas, à perfeição de um duradouro relacionamento amoroso. Lavrado
nesse mar perpétuo de lembranças profundas, o heroi constitui e sobrepõe
imagens distintas da memória e do cotidiano por meio do deslocamento horizontal do romance, ver Schüler (1989), assim o
leitor é inserido na atmosfera da representação social e das sensações
sentimentais das lembranças do heroi.
A
relação do heroi de Memória de Elefante
com o mundo que o cerca é tão descompassada quanto às memórias que o acometem
sem permissão durante o cotidiano. O psiquiatra não se reconhece como
profissional de sucesso, assim como não compartilha de ideais burgueses e preconceituosos
que transparecem na fala de amigos e familiares. A herança da família
tradicional burguesa do médico também não apetece a personalidade do heroi em
busca de uma vida condizente com a sua ascendência. A sua relação enfática mais
comprometida é mesmo com a rememoração de seu passado, em busca de uma resposta
que apazigue sua perturbação interior e que o conduza de algum modo para a vida
serena e feliz anterior ao divórcio.
Nesse
sentido, o personagem: Meursault, de Albert Camus, em O Estrangeiro, também vive em
descompasso com o mundo no qual o personagem está inserido. A distinção entre
Meursault e o heroi de Memória de
Elefante, é que Meursault não busca resposta nenhuma no mundo e nem nas
instituições que regem a sociedade que o rodeia, muito menos no seu
subconsciente para viver uma vida tranquila e feliz. Embora o personagem esteja
em descompasso com a sociedade que o cerca, assim como o médico de Memória de Elefante, Meursault tem total
consciência do seu destino injusto e não se martiriza por isso, nem mesmo busca
resposta para as desgraças impostas pelo destino. O personagem de Camus não se
deixa enveredar pelas ideias de constituição de família, de amor em vida
conjugal e de filhos, como o personagem de Antunes tenta recuperar para
restituir sua vida interior normal e feliz. Meursault deixa-se levar
tranquilamente pelos fatos irônicos e injustos da vida, tentando encontrar, e
realmente encontrando, o prazer e a felicidade em cada sequência dramática e
severa que a vida burguesa o reserva.
Já em
sentido contrário, conforme Schüler (1989) discorre sobre o tópico Campo e Cidade, mostra-se
também em descompasso o heroi, Rastignac, de Balzac, em O Pai Goriot. O único
conflito interno de Rastignac é a adequação de costumes herdados da vida no campo para com seus interesses burgueses
arrivistas de prosperidade diante da vida de folgança na cidade. O heroi de Balzac também cultiva uma aflição angustiante
assim como o psiquiatra de Memória de Elefante. No entanto, essa aflição é
alimentada por uma consciência maquiavélica que o conduz por caminhos lúcidos
para atingir seus objetivos voluptuosos de felicidade burguesa, que ao invés de
desprezo ou indiferença ao microespaço
de representação que o cerca, o personagem intenta integra-se com total
disposição e consciência. Ao passo que o heroi psiquiatra ainda perscruta o
passado para entender o caminho que deve seguir e restituir, assim, a
felicidade que foi desagregada do seu ser.
Observamos,
portanto, que os três personagens são conscientes do espaço que os cercam, mas
que cada heroi se articula distintivamente diante da ironia do destino. O
médico de Memória de Elefante que é
amordaçado por uma vida de memórias terríveis, que o destino costuma premiar as
pessoas aleatoriamente, sem discriminação, com ironias sarcásticas; e que,
porém, consciente da sociedade que o rodeia, vive sem respostas para sua
infelicidade e segue a vida de modo desolado. Já Meursault em O Estrangeiro, embora também seja
consciente, é completamente indiferente ao mundo injusto que o conduz,
encontrando felicidade em pequenas coisas que o satisfaz mesmo quando a
liberdade lhe é suprimida. Enquanto, Rastignac, em O Pai Goriot, também, comporta-se de forma lúcida diante do mundo,
mas com a diferença de agir ativamente e friamente no contexto em que está
inserido, para que assim alcance sua felicidade burguesa, tão desejada, em meio
às ironias implacáveis que igualmente o assolam.
Referências:
ANTUNES, A.L. Memória de Elefante. 1.ed. São Paulo: MEDIAfashion, 2012. 160p.
BALZAC, H. de. O Pai Goriot. Tradução de Mariana Appenzeller. 2.ed. São Paulo,
Estação Liberdade, 2002. 295p.
CAMUS, A. O Estrangeiro. Tradução de Valerie Rumjanek. 29.ed. Rio De Janeiro,
Record, 2008.126p.
SCHÜLER, D. Teoria do Romance. São Paulo, Editora Atica S.A., 1989. 88p.


